20 mar 2012

Relato de um pai


Dando continuidade a série depoimentos, hoje o blog será presenteado pelo texto do publicitário Fábio Ludwig, pai do Antonio que tem um aninho. Fábio possui um Blog, o Flizam onde uma vez por semana ele nos presenteia com seus maravilhosos textos, super recomendo a leitura… sempre que eu o faço confesso que aprendo muito.

Bjo, bjo

“…Acredito que nove entre dez grávidas tenha em sua estante o livro “O que esperar quando estiver esperando”. Se não este especificamente, algum do mesmo estilo. Nada contra a leitura. Quando a minha esposa estava esperando o nosso filho, Antonio, eu mesmo dava as minhas folheadas naquela enciclopédia gestacional. Ficava horas olhando as figuras da evolução do bebê dentro da barriga, completamente hipnotizado pelo fato de ele já ter olhos, ou dedos, ou qualquer outra parte do corpo. E simulava com satisfação o tamanho dele entre o meu indicador e o meu dedão, sempre roubando um pouquinho para cima. Coisas de pai.

A natureza é sábia. E quando nos presenteia com o milagre de gerar uma vida, ela nos dá mais ou menos nove meses para nos acostumarmos com a ideia. Cientificamente, é o tempo que um homem leva para pesquisar o preço de 796 berços, chegar à conclusão de que o melhor custo-benefício é um modelo mais simples, mas na hora de fechar o negócio, acabar comprando aquele caro, da loja do shopping, só porque a sua mulher achou lindo de morrer e vai chorar se não levar. É também o período necessário para aprender uma nova língua: o nenenhês, em que termos nunca antes ouvidos, como “cueiro” e “shantala”, passam a fazer parte do seu cotidiano. Sem contar que é preciso alguns meses para conseguir ler os manuais da babá eletrônica, do carrinho, do esterilizador de mamadeiras, além de fazer os cursos de dar banho, trocar fraldas, entre outras habilidades que se tornarão indispensáveis quando o bebê chegar. O check list é grande. É preciso se preparar.

A gestação do Antonio foi um mar de tranquilidade. Nem brisa bateu. A minha mulher se sentia bem, os exames estavam dentro do esperado, nosso bebê se mexia e chutava o tempo todo. Fizemos chá de bebê, viajamos, tiramos fotos da barriga, enchemos nossos corações de planos. Sabíamos que teríamos o filho perfeito. Era só aguardar a hora certa.

Porém, assim que o Antonio nasceu, sentimos o peso da responsabilidade de ser pai e mãe. Nosso filho não berrou, não se mexeu, demorou um ou dois minutos – que para mim foram um ou dois séculos – para respirar. Quando finalmente saiu, o choro saiu completamente diferente dos outros bebês que estavam nascendo naquele dia. Baixei minha máquina fotográfica sem disparar a foto. Senti minha espinha gelar.

Passamos o nosso aniversário de 4 anos de casamento dentro do hospital. E o presente que havíamos nos dado, nosso filho, tão desejado, tinha vindo com um detalhe que livro algum nos ensinou a esperar: uma síndrome genética rara, com diversas complicações. Era um conjunto de malformações tão único, que ninguém na maternidade conseguia dar um diagnóstico. Os médicos não tinham palavras que pudessem nos acalmar.

Fomos para casa com nosso bebê nas mãos e nossos pés sem chão. Morríamos de medo de ter culpa do que havia acontecido. “Que remédios você tomou?”, perguntavam para a Ana, minha mulher. “Como o obstetra não viu isso no ultrassom?”, indignavam-se os familiares. As hipóteses assombravam nossa cabeça. O sentimento de impotência embrulhava o nosso estômago. A única saída era descobrir o quanto antes o que o Antonio tinha e saber como agir. Compreendemos imediatamente que nossa história havia tomado um rumo sem volta: criar um filho especial. A vida abriu uma porta inesperada. Estava escuro, mas decidimos entrar.

Em cinco meses, conseguimos nos livrar do desespero da ignorância. Um exame muito específico mostrou que o Antonio havia perdido um pedaço do cromossomo 6. E por uma ONG da Inglaterra, que oferece apoio a famílias com casos de desordens genéticas raras, encontramos cerca de 100 casos similares no mundo. Nosso futuro finalmente começava a ficar um pouco mais claro.

Descobrimos que os bebês com esta síndrome – ainda sem nome – têm um atraso geral, tanto no desenvolvimento motor, quanto no cognitivo. Demoram bastante para sentar, para engatinhar e para andar. Mentalmente, tendem a ser eternas crianças. Muitos pronunciam apenas algumas palavras, alguns não chegam a falar.

Por outro lado, há tão poucos casos no mundo, que nenhuma informação tem consistência numérica para ser uma sentença. Nenhum dos ganhos de desenvolvimento tem limite definido. Há crianças lendo e conversando. Há casos de crianças correndo aos quatro anos. São nesses exemplos que a minha mulher e eu nos apoiamos. A expectativa, tão injusta com os filhos – sejam crianças especiais ou não –, foi transformadaem esperança. Istoninguém pode nos arrancar.

Existe uma piada boba que diz que casamento é igual a piscina gelada: os amigos entram e dizem “vem que a água está boa”. Na questão dos filhos, não desejo de forma alguma que o que aconteceu comigo e com minha mulher se repita com outros casais. Sempre que ouço sobre uma gravidez, concentro meus pensamentos para que aquela criança venha cheia de saúde. Hoje em dia, poucas imagens me deixam tão feliz quanto ver um bebê aprendendo a andar. Como meu filho já tem um ano e ainda não consegue engatinhar, sei muito bem o valor que os primeiros passos têm para os pais.

Porém, a chegada do Antonio, mesmo com todos os problemas de saúde, fez minha vida ganhar um novo sentido. A alegria que sinto a cada vitória dele faz todos os esforços valerem a pena. É o melhor sentimento que já tive na vida. Uma satisfação impossível de mensurar.

O Antonio me faz rir o tempo todo, anda cheio de manias e abre um sorriso arrebatador quando faço cócegas. Ele adora tomar banho de chuveiro, fica feliz da vida quando descemos para o parquinho e, recentemente, aprendeu a gemer para reclamar – e tem usado a nova técnica em qualquer oportunidade. Desde a semana passada, decidiu que não quer dormir no berço. Ontem, só queria ficar olhando para a geladeira aberta. E hoje, pouco antes de eu escrever este texto, o Antonio se arrastou para frente pela primeira vez. Minha mulher me ligou eufórica para contar. Voltei pra casa correndo, com o peito batendo, na esperança de vê-lo tentar novamente. Momentos assim são históricos. Emoções que nunca irão se apagar.

Ter um filho especial foi a piscina mais gélida em que já pulei. Como falei ali em cima, diferentemente da piada sobre casamento, não quero que ninguém entre nesta água comigo. Porém, tenho feito questão de dividir a minha história com as pessoas, especialmente com pais e mães. Conto meu dia-a-dia para mostrar que imprevistos – mesmo uma deficiência séria como a do meu filho – dão um choque térmico, sim, mas não matam. Para falar a verdade, sou muito grato a esta água gelada chamada Antonio. É ele quem todos os dias me faz querer nadar mais…”

Fábio Ludwig é publicitário e escreve todas as segundas no blog www.flizam.com.

Este é o Fábio com sua esposa Ana e o filhote Antonio – Linda esta família, vc´s não acham?

Crédito da fotógrafa Rebecca Omena

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15 Comentários

  1. Fábio Ludwig disse:

    Obrigado, Fernanda, pelo espaço. Um beijo

    • Fernanda Rocha disse:

      Obrigada eu Fábio, por nos presentear com um belo texto. Saiba que existirá sempre um espaço para vc aqui no Blog.

      PS: Parabéns pela linda família ;-))

  2. Adriana Faria Santos Schmid disse:

    Fabio, aqui é a Dri da ESPM Jr., lembra? Fiquei emocionada com o seu blog e principalmente por ter te encontrado. Te desejo muita paz, força (o que você tem de sobra) e alegrias, pode ter certeza de que o Antonio ainda te trará muitas e muitas alegrias. Se estiver em SP, gostaria muito de te reencontrar, conhecer a sua esposa e principalmente o Antonio! Um grande beijo Dri.

  3. Vanessa e Alex disse:

    Família especial! E o Antonio, um gostoso!
    Beijos

  4. LILIANE disse:

    FÁBIO, CONQUISTAS-TES UMA LEGIÃO DE FÃS E AMIGOS NESSAS PAGINAS.
    SIMPATIA…EMPATIA …..UM BEIJÃO PARA VOCES TRES….AH, AMEI A ESTORIA DO PORQUÊ DO NOME ANTÔNIO, FOI MUITA CORAGEM DA ANA TE PRESENTEAR COM O SANTINHO. RSSSSSSS

  5. Marcela Costa disse:

    Que depoimento lindo e que texto mais emocionante. É sempre tão bom “ver” crianças tão amadas. Ter filho é um salto no escuro, sempre. É a melhor maneira de perceber que a gente não controla nada e o máximo que podemos fazer é isso aí, se tornar um porto seguro, cheio de carinho, compreensão e esperança. Parabéns Fábio e Ana. Desejo para o Antônio o que desejo para os meus próprios filhos, apoio e serenidade para alcançarem todo o seu potencial. Que eles, melhor do que nós, sabem muito bem qual é.

  6. Andréia de Queiroz disse:

    Simplesmente lindo o seu depoimento! Sei bem o que é isso pois temos uma filhinha a Manuela e ela nasceu com Artrogripose Multipla Congênita. Estamos na luta todos os dias, os quais são lindos pela presença da Manu e por seu sorriso. Nossas vitórias com estes anjos tem mais emoção e nossa vida mais luz!
    Abraços fraternos e beijos ao Antônio

  7. Tatiana Mares guia disse:

    Fábio e Ana, uma amiga querida Cynthia Bruneto, me indicou a leitura do seu Blog. Vocês tem uma linda caminhada pela frente!
    costumo “brincar” que eu tenho dois filhotes SD lá em casa… um com Sindrome de Down e outro sem diagnóstico!!!É isso mesmo, tenho dois especiais! O Augusto com 11 anos e o Guilherme com 8, ainda sem diagnóstico. Há muito tenmpo queria saber o que o Gui tinha,pois assim acreditava que poderia fazer algo por ele, como fazemos com a Sindrome de Down tão bem conehcida e pesquisada. Como não consegui saber o diagnóstico resolvi fazer TUDO! Fonoaudiologia, TO, fisioterapia, equoterapia, hidro… tudo que significava estimulação! E como tem dado certo!!! Saber o nome não mais me importa. Corro atrás de resultados para o Gui e posso afirmar que ele é um vitorioso!Contei esse breve relato para dizer para vocês terem força, muita força, porque vale a pena cada dia, cada momento de conquista, cada vitória alcançada, mesmo que pequenininha…vocês fizeram a escolha certa: de poder dar oportunidades para o Antônio! E tenho certeza que vocês serão iluminados todos os dias!Depois por e-mail posso mandar fotos dos meus dois anjos.
    Um abraço,
    Tatiana, Gugu e Guigui

  8. Clarice Marques de Vasconcelos disse:

    Tenho dois filhos, Vitor de 7 anos e Bruna de 5 anos, os quais são a razão da minha vida, pelos quais tenho o enorme prazer de dispensar a maior parte do meu tempo. E, assim, qualquer historia relacionadas a filhos me desperta muito interesse. Uma amiga (Kiki) postou no facebook o texto referente ao primeiro ano de vida do Antônio. Aceitei a recomendação da leitura, e só parei de ler o blog após ter lido TODOS os textos. Virei fã, tanto pela qualidade dos textos, quanto pela historia de vida da família. E o que achei mais legal foi o fato de ser o pai o responsavel pelos textos. Ate então somente tive acesso a blogs de mães. Fico sempre muito emocionada. Desejo tudo bom, e que Deus continue lhe dando muita força e proporcionando muitos momentos de alegrias junto ao seu lindo filho e esposa. Com carinho. Clarice.

  9. Jessica França disse:

    Oi Fábio,estou cursando o 5° periodo de fisioterapia.Preciso fazer um trabalho(opiniao critica ) sobre um blog que fale de uma criança especial,estava avaliando alguns pela internet e me deparei com o texto acima,SEM DUVIDA falarei da sua família que lindamente se construiu com a presença do Antônio,enfim so postei o comentario pois acho muito brava a sua coragem de postar sua linda historia,visto que ,vemos tantas maes fazerem o mesmo sem ao menos relatar qual a participaçao do pai mas historias contadas e voce tao bravamente relatou, sendo pai.Parabens e com certeza acompanharei sempre seus relatos.

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